• Felipe Beltrame

Fogo!

Em agosto de 2020 fui convidado pelo querido Sato do Brasil para escrever para o Jornalistas Livres, no projeto "Projeto Futuro do Presente, Presente do Futuro". Fiz sobre minha experiência com a cobertura da ação de combate, protagonizada por indígenas, aos incêndios na Terra Indígena Jaraguá, na zona norte de São Paulo capital, Brasil.


À época, achei bastante interessante escrever sobre esta experiência ainda borbulhante em minha mente. Qualquer chance de convívio e escuta junto aos povos indígenas, é um enorme aprendizado e aquele episódio não foi diferente.


Aqui, compartilho o texto e algumas imagens para você. Espero que goste e que, de alguma forma, lhe inspire a apoiar a causa indígena e a preservação da natureza: "Fogo! Para que essa história acontecesse, a fumaça não precisou viajar do norte para o sudeste e escurecer a tarde paulistana. Durante todo o domingo de 12 de junho de 2020, a floresta queimou na Terra Indígena Jaraguá.


O acesso aos locais atingidos pelo incêndio era difícil. Durante a noite, a escuridão em um terreno íngreme, brasas queimando ou o solo quente, marcavam a passagem do fogo pelo local e exigiram conhecimentos e habilidades exclusivas dos que pertencem àquela terra.


Enquanto tragavam a fumaça produzida pela Mata Atlântica carbonizada, os guardiões da floresta protagonizaram a sua salvação. Impelidos à proteção da mata que os cerca e sem infraestrutura adequada, indígenas espancavam as chamas utilizando galhos com folhagem verde até abafarem o fogo.


Em um dos momentos em que adentrávamos à floresta, comecei a me coçar, sentindo o incômodo de pequenos arranhões feitos por galhos e folhas. Ao ser percebido, a resposta veio de um dos indígenas do grupo: “Deixa coçar. Experimente sentir essa sensação. A vida na cidade deixa o homem branco desconectado da natureza e sentir essa coceira, esse incomodo, significa a fase de transição entre estados de espírito. Você vai perceber que, em breve, não sentirá mais nada e essa será a prova de que você conseguiu se conectar com a natureza”.


Em 2019 e 2020, acompanhamos relatos sobre os incêndios que avançaram sobre a Floresta Amazônica. Assistir e ouvir sobre as ações indígenas nestes episódios, revela parte da realidade por eles vivenciada durante esses mais de 500 anos de invasões e ataques. Escutar a expressão “guardiões da floresta” foi realmente impactante. Na Terra Indígena do Jaraguá, no extremo noroeste de São Paulo, capital, vi a força deste termo empregada em jovens indígenas. Viver essa experiência permitiu a natural constatação de que o povo indígena cuida de todos, quando protege a natureza."

Bom... antes de terminar a história, acho o momento de rememorar e contar mais sobre o dia do incêndio. Antes de chegarmos lá, estávamos eu, Murilo Salazar e Marcelo Rocha, documentando um protesto motivado pelo sétimo dia após a morte do menino Gabriel, de 15 anos, que foi covardemente assassinado, na Vila Clara, zona sul de São Paulo capital. Outro cenário terrível e estrutural no Brasil, a morte precoce das populações periféricas.


O "chegarmos" é, pois, Murilo, Marcelo e eu, fomos à TI Jaraguá juntos. Então, encontramos o Rafael Vilela e os guardiões da floresta para fazermos a cobertura.

Por fim, agradeço ao Thiago Djekupé Guarani, ao Mirim Ju Yang Guarani, ao Carai Jeguaka e aos demais guerreiros indígenas que apagaram bravamente o fogo e nos guiaram em meio a floresta! Observação: a fala sobre a transição entre estados de espírito foi dita pelo Mirim Ju, mencionado acima.

Texto, vídeo e fotografias: Felipe Beltrame.

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Fotojornalista, fotógrafo documental e cinegrafista brasileiro engajado nos Direitos Humanos em todas as suas dimensões.